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22 de março de 2016

As incríveis Páscoas da Espanha

A Páscoa é celebrada de formas tão incríveis e diferentes pelo mundo que daria para fazer uma super viagem ao redor do planeta tendo esse feriado como tema – se tudo não fosse restrito a uma única semana, é claro.

Foto: iStock/Roberto A Sanchez
Foto: iStock/Roberto A Sanchez

No Haiti, por exemplo, ela mistura cristianismo com rituais vudus, num sincretismo fantástico. Nas Bermudas, o pessoal empina pipas para lembrar a ascensão aos céus. No sul da Alemanha acontecem procissões a cavalo. Em vários países eslavos, homens jogam água em mulheres, seguindo uma tradição pagã de culto à primavera. E nas Filipinas, as pessoas radicalizam e se crucificam de verdade, com pregos, sangue, gritos e coisa e tal.

Entre estes e tantos outros, um país maravilhoso para se estar durante a Páscoa é a Espanha.

Já tive a sorte de estar numa das cidades espanholas mais concorridas nessa época, Sevilha, e pude ver com meus próprios olhos todo o festerê andaluz ao redor da data, mas fui atrás de outras duas festas sensacionais de lá para mostrar para você.

Pegue seu ovo de chocolate (ou o que for mais tradicional nessa época onde você estiver) e acompanhe.

Semana Santa em Calanda
Calanda fica na região do Aragão, a 120 km de Zaragoza. Não tem mais que 4 mil moradores, é praticamente um povoado, mas há centenas de Páscoas repete uma das tradições mais profundas da Espanha, que marca a vida de todos que nascem e crescem lá: La Rompida de La Hora.

Pouco antes do meio-dia da Sexta-feira Santa, milhares de pessoas vestidas com túnicas roxas, carregando tambores e bumbos, se reúnem em uma praça e onde couber gente nos arredores. Todos ficam em absoluto silêncio até o relógio marcar as 12 horas. Ao primeiro segundo da tarde, começam a bater nos seus instrumentos com força e só param na tarde do Sábado de Aleluia.

Foto: jacinta lluch valero/Flickr/CC BY-SA 2.0
Foto: jacinta lluch valero/Flickr/CC BY-SA 2.0
Foto: jacinta lluch valero/Flickr/CC BY-SA 2.0
Foto: jacinta lluch valero/Flickr/CC BY-SA 2.0

Como quase sempre acontece, a história da tradição é uma lenda. Tudo teria começado em 1127, durante uma Semana Santa, quando um pastor enxergou invasores árabes indo em direção a Calanda e começou a tocar o seu tambor para avisar a população. Outro pastor escutou e começou a tocar também. Depois outro, outro e outro.

Os calandinos receberam o aviso e conseguiram se esconder. A partir de então, passaram a comemorar a Semana Santa tocando os tambores salvadores.

O cineasta Luis Buñuel, o calandino mais famoso e uma das mentes mais criativas que o mundo já viu no cinema, colocou elementos de La Rompida de La Hora em várias de suas obras. E no seu livro de memórias, fala da festa apaixonadíssimo. Este trecho é um bom resumo:

“Fenômeno assombroso, poderoso, cósmico, que roça o inconsciente coletivo, os tambores fazem o solo tremer sob nossos passos. Basta encostar a mão na parede de uma casa para senti-la vibrar. A natureza entra no ritmo dos tambores, que se prolonga noite adentro. Se alguém dorme, embalado pelas batidas, desperta bruscamente quando essas batidas se afastam e o abandonam. No fim da noite, o couro dos tambores está todo manchado de sangue. As mãos sangram de tanto bater. E, no entanto, trata-se de mãos calejadas, de lavradores.”

Semana Santa em Lorca
A encenação da Paixão de Cristo é algo bem comum de se ver no período de Páscoa. Mas se você estiver em Lorca, cidade de 100 mil habitantes a 70 km de Múrcia (capital da região com o mesmo nome), o mais fácil mesmo é ver uma enorme encenação do Velho Testamento.

O Castelo de Lorca (foto: Fjc/Wikimedia/domínio público)
O Castelo de Lorca (foto: Fjc/Wikimedia/domínio público)

A tradição começou em 1855, por conta de uma rivalidade que existe até hoje entre as seis confrarias responsáveis pelos festejos de Páscoa na cidade – principalmente entre a Paso Azul e a Paso Blanco, as maiores de todas.

Até o ano anterior, as celebrações de Páscoa seguiam a liturgia tradicional, mas em 1855 o pessoal da Paso Blanco resolveu apresentar algo novo e criou uma encenação da “Entrada Trinfal de Jesus em Jerusalém”. Em 1856, foram mais longe e levaram para a rua a primeira encenação de um evento do Velho Testamento. Então a coisa não parou mais. Ano após ano, cada confraria criou algo diferente, sempre baseado na primeira parte da Bíblia.

Foto: jacqueline macou/CC0 1.0
Foto: jacqueline macou/CC0 1.0
Foto: jacqueline macou/CC0 1.0
Foto: jacqueline macou/CC0 1.0
Foto: jacqueline macou/CC0 1.0
Foto: jacqueline macou/CC0 1.0

Hoje o espetáculo (que acontece em uma grande rua da cidade, transformada em uma espécie de passarela) é enorme e tem cavalos, bigas, quadrigas, tropas romanas, carros alegóricos, egípcios, persas, Cleópatra, Marco Antônio, Ester, roupas e estandartes com bordados maravilhosos – uma marca de Lorca – obras barrocas lindíssimas e um mundo de coisas mais, que exigem a participação de mais ou menos mil atores, 700 cavalos e, é claro, o investimento de centenas de milhares de euros.

Semana Santa em Sevilha
Esta eu vi ao vivo e posso atestar: é algo muito, muito, muito grandioso.

Sevilha, capital da Andaluzia, a 530 km de Madri, tem 700 mil habitantes e está bem longe de ser uma cidade pequena. Mesmo assim, fica completamente parada e vê suas ruas lotarem de moradores e visitantes vestindo as suas melhores roupas – o que dá a real dimensão da importância do evento para os andaluzes.

Foto: iStock/Sean Pavone
Foto: iStock/Sean Pavone

São tantos homens de terno, gravata e gel no cabelo, tantas mulheres com vestidos de festa e penteados meticulosamente arrumados que a impressão que você tem é a de estar numa gigantesca festa de casamento que dura manhã, tarde, noite e madrugada.

(Festa, aliás, para a qual você não está devidamente arrumado, já que é um turista e não levou aquele tipo de roupa na sua mala.)

A impressão de estar num casamento só passa quando você começa a ver os penitentes e os nazarenos andando pelas ruas, com seus capuzes cônicos que inevitavelmente nos lembram da Klu Klux Klan, mas que – é importantíssimo ressaltar – não têm a menor relação com ela.

Foto: iStock/Roberto A Sanchez
Foto: iStock/Roberto A Sanchez
Foto: @gabebritto
Foto: @gabebritto

São mais de 50 mil deles, por todos os lados, a caminho das suas igrejas, de onde partirão com suas confrarias em cortejos pelas ruas sevilhanas, carregando os pesadíssimos pasos – espécies de carros alegóricos com imagens de Cristo e de santos – enquanto suas bandas vão na frente tocando músicas flamencas que os moradores cantam emocionados.

Outros tantos confrades fazem parte das quase 60 procissões, nem todos com a mesma roupa e a mesma função, mas cada um demonstrando igualmente o seu amor, a sua devoção e a sua determinação de sofrer por Cristo e pela religião.

Foto: iStock/Roberto A Sanchez
Foto: iStock/Roberto A Sanchez
Foto: iStock/Roberto A Sanchez
Foto: iStock/Roberto A Sanchez

As procissões, que acontecem desde o século 16, duram a Semana Santa inteira, praticamente 24 horas por dia, e confundem o turista. Mas ainda que você perca muito do que está acontecendo, é uma experiência incrível. Nunca mais você vê uma Páscoa da mesma maneira depois de passar por Sevilha.


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Conheça mais curiosidades sobre a Espanha aqui.

Gabe Britto
Gabe Britto

Gabriel não se intimida com distâncias enormes, nomes de lugares que ninguém nunca ouviu falar, cardápios incompreensíveis. Mais do que viajar, ele adora pesquisar curiosidades exóticas e extraordinárias ao redor do mundo – e, claro, conferir de perto (e sem pressa) suas descobertas.