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25 de março de 2016

Noruega: o dia em que pesquei o bacalhau da Páscoa

Ok, o título deste post não é 100% correto, mas também está longe de ser história de pescador. O bacalhau que eu pesquei na Noruega tinha “apenas” 3 quilos. O que vai para a sua mesa nesta Páscoa pode ter até uns 30 quilos e, em média, 6 ou 7 anos de idade. Bora para a Noruega entender mais como ele chegou na sua mesa? (Isso inclui como eu pesquei o “meu” bacalhau, juro.)

Para isso, vamos a Tromso, a maior cidade (para não dizer única) da região norte do país, 400 quilômetros acima da linha do Ártico – com cerca de 67 mil habitantes, uma respeitável universidade, cena cultural bacana e mais pubs per capita do que qualquer outra cidade da Noruega. No verão, quando o sol dá um rasante no horizonte lá pela meia-noite para voltar à ativa perto das 2 da manhã, tem gente na rua a qualquer hora da madrugada. O inverno é a estação com mais passeios para ver a famosa Aurora Boreal.

Foto: Cindy Wilk.
Foto: Cindy Wilk.
Foto: Cindy Wilk.
Tromso no Verão. Foto: Cindy Wilk.

Dica: se você for a Tromso na estação quente, vale assistir ao lindo filme sobre o fenômeno exibido na tela de 180 graus do Polaria, uma interessante mistura de museu multimídia e aquário.

Aurora Boreal. iStock/antony spencer
Tromso no Inverno. iStock/antony spencer

Mas o que o bacalhau tem a ver com Tromso? É lá o quartel-general do Conselho Norueguês da Pesca, que controla e patrulha a pesca sustentável deste e de outros peixes, alguns quase ameaçados de extinção no final da década de 1980. Os noruegueses, que sempre viveram do mar e dependeram da pesca para sua sobrevivência, tomaram então uma série de atitudes, como estabelecimento de cotas de manejo, fiscalização de navios pesqueiros e patrulha da área.

Antigas baleeiras viraram barcos de passeio. Caso do Vulkana, de 1957, todo de madeira, transformado num rústico-chique barco-spa. Tem sauna seca, hammam (aqueles banhos árabes) e um ofurô ao ar livre, tudo para esquentar os passageiros que saltam ao mar em pleno Ártico. Para passeios mais longos, há cabines para 12 pessoas dormirem.

Um mergulho no Ártico depois de “esquentar o sangue” no ofurô. Foto: Cindy Wilk.
Um mergulho no Ártico depois de “esquentar o sangue” no ofurô. Foto: Cindy Wilk.

A pesca do bacalhau acontece mais a sudoeste de Tromso, nas proximidades das Ilhas Lofoten, onde entre dezembro e abril, milhões de Gadus morhua (que até então levavam uma vida mansa no longínquo Mar de Barents, porção do Oceano Ártico que banha a Noruega e a Rússia) migram para se reproduzir.

Gadus morhua – ou cod – é o nome científico do peixe que, salgado e seco, conhecemos no Brasil como bacalhau. E a maior parte das toneladas pescadas na Noruega vão parar no nosso prato. Apesar de o nosso consumo per capita ser de apenas 300 gramas anuais contra os 10 quilos dos portugueses, a dimensão continental do Brasil nos coloca como os maiores consumidores de bacalhau do mundo.

Um ferryboat de linha da Hurtigruten nos leva de Tromso a Svolvaer, a cidade principal das Ilhas Lofoten. Num país cujo litoral cheio de ilhas e reentrâncias soma 101 mil quilômetros, o ferry é uma espécie de ônibus, mas com cara de navio de cruzeiro. As cabines são bem razoáveis, a comida não desaponta e a paisagem revela fiordes inesquecíveis.

Foto: Cindy Wilk.
Foto: Cindy Wilk.

Svolvaer é uma vila essencialmente pesqueira. São 5 mil habitantes e sensação de estar num lugar realmente distante. Pescar – especialmente o bacalhau – é o que há para fazer nessa cidade que quase cheira a peixe.

A pequena cidade de Svolvaer, nas Ilhas Lofoten. Foto: Cindy Wilk.
A pequena cidade de Svolvaer, nas Ilhas Lofoten. Foto: Cindy Wilk.

No inverno, ripas de madeira funcionam como imensos varais onde o peixe é pendurado para secar ao sol durante três meses, até que vire um “stockfish”. Muito apreciado em países como a Itália, o bacalhau seco e sem sal fica com 20% do seu peso original.

O stockfish secando ao relento. iStock/Harvepino
O stockfish secando ao relento. iStock/Harvepino

Mesmo fora da época, barcos turísticos saem para pescarias até que cavalinhas, hadoques e pequenos cods mordam a isca. Depois, absurdamente frescos, são preparados ao ar livre. Detalhe: na Noeruega, o bacalhau é consumido fresco.

Foto: Cindy Wilk.
Foto: Cindy Wilk.

Pois foi ali que embarquei no pequeno barco pesqueiro Symra. Nos ensinaram a pescar à moda norueguesa, com isca falsa e mexendo a linha constantemente. De repente, sinto uma fisgada. Apesar de o meu bacalhau ter apenas 3 quilos, era bravo e quase não tive força para tirá-lo da água. E, sim, ele tinha cabeça.

Para quem duvidou, a prova.
Para quem duvidou, a prova.

E aí, ficou com vontade de se aventurar na Noruega pescando bacalhau? A To Go tem as melhores ofertas de voos para você.

Cindy Wilk
Cindy Wilk

Cindy rodou mais de 40 países, ama praias e desertos, acha a Ásia o continente mais aconchegante do mundo e não pretende parar nunca de viajar para escrever e escrever para viajar. Autora de Endereços Curiosos de Londres (Panda Books) e Volta ao Mundo em 101 Dicas (Ediouro), colaborou para várias publicações de viagem e foi diretora de redação da revista TAM nas Nuvens.